Para ensinar a produzir bons textos, você precisa ensinar aos alunos o que fazem os escritores competentes. É necessário, portanto, ensinar-lhes os comportamentos escritores e leitores.
São comportamentos escritores básicos as ações de:
- Planejar o que se pretende escrever;
- Textualizar, isto é, escrever o texto propriamente dito;
- Revisar o texto escrito.
Todas essas ações só são possíveis quando se tem clareza da função comunicativa do texto que está sendo produzido. Ou seja, para se produzir um bom texto é necessário considerar o gênero textual, os potenciais leitores, os objetivos que se pretende com aquele material escrito (informar, divertir, encantar, etc.). Esses elementos são imprescindíveis para que o aluno consiga planejar, textualizar e revisar o próprio texto.
Ao escrever, os alunos também colocam em práticacomportamentos leitores, como:
- Antecipar a informação que segue no texto;
- Verificar se o que foi antecipado se confirma ou não;
- Reler para compreender melhor;
- Saltar trechos incompreensíveis, pouco interessantes ou que já foram lidos.
Esses dois conjuntos contêm os comportamentos mais importantes que escritores e leitores mobilizam individualmente quando lêem ou escrevem. Além dessas ações, é necessário ensinar aos alunos os comportamentos leitores e escritores que são mais sociais, como:
- Submeter uma versão (parcial ou completa) do texto à leitura preliminar de alguns leitores para saber se objetivos definidos no planejamento estão sendo atingidos;
- Comentar ou compartilhar as impressões da leitura de um texto com outras pessoas;
- Recomendar leituras;
- Pedir recomendações de leitura.
As boas propostas de ensino de produção de texto trabalham simultaneamente vários desses comportamentos, priorizando determinados aspectos em momentos específicos. Como afirma Delia Lerner em seu livro Ler e Escrever na Escola - O Real, o Possível e o Necessário, "os comportamentos do leitor e do escritor são conteúdos - e não tarefas, como se poderia acreditar - porque são aspectos do que se espera que os alunos aprendam, porque se fazem presentes na sala de aula precisamente para que os alunos se apropriem deles e possam pô-los em ação no futuro, como praticantes da leitura e da escrita."
Expectativas de aprendizagem
A seguir, apresentamos dois referenciais para que você balize o que sua turma deve saber em relação à produção escrita ao final das séries iniciais do Ensino Fundamental 1. As obras dialogam entre si, trazendo expectativas semelhantes e/ou complementares.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa estabelecem como objetivos para a produção escrita ao final da 2ª série (atual 3º ano) que os estudantes sejam capazes de:
- Produzir textos escritos coesos e coerentes, considerando o leitor e o objeto da mensagem, começando a identificar o gênero e o suporte que melhor atendem à intenção comunicativa;
- Considerar a necessidade das várias versões que a produção do texto escrito requer, empenhando-se em produzi-las com ajuda do professor;
- Escrever textos dos gêneros previstos para o ciclo, utilizando a escrita alfabética e preocupando-se com a forma ortográfica. Os gêneros sugeridos para o trabalho com a linguagem escrita são: receitas, instruções de uso, listas; textos impressos em embalagens, rótulos, calendários; cartas, bilhetes, postais, cartões, convites, diários; quadrinhos, textos de jornais, revistas, e suplementos infantis; anúncios, slogans, cartazes e folhetos; parlendas, canções, poemas, quadrinhas, adivinhas, trava-línguas, piadas; contos (de fadas, de assombração etc.), mitos e lendas populares, folhetos de cordel, fábulas; textos teatrais; relatos históricos, textos de enciclopédia, verbetes de dicionário e textos expositivos de diferentes fontes.
Por sua vez, a proposta curricular da Província de Buenos Aires, na Argentina, estabelece que, ao final do 2º ano, os alunos das séries iniciais sejam progressivamente capazes de:
- Tomar decisões sobre o gênero, o registro, o suporte, a informação que ser incluída e a que será omitida, a ordem de apresentação das informações, etc., de acordo com os propósitos e os destinatários do texto;
- Planejar o texto antes e enquanto está escrevendo;
- Consultar outros materiais de leitura que colaborem para a elaboração do texto;
- Revisar a própria produção enquanto escreve, refazendo diversas versões para elaborar um texto bem escrito e tomando decisões sobre a apresentação final dele.
- Colaborar com a revisão dos textos dos colegas, mostrando diferentes pontos de vista sobre distintos aspectos do tema.
- Receber criticamente as sugestões dos colegas e decidir sobre a incorporação ou não na versão final do próprio texto.
Desde as séries iniciais, o trabalho de produção de texto precisa fazer parte da rotina
Articuladas com os momentos que priorizam o ensino da leitura, as situações didáticas de produção de texto devem fazer parte da rotina escolar desde as séries iniciais, mesmo que os alunos ainda não escrevam convencionalmente. O domínio do sistema alfabético não é pré-requisito para o trabalho com a linguagem escrita.
No planejamento, além de partir das dificuldades e dos conhecimentos explicitados pelos alunos no diagnóstico inicial, é preciso eleger quais comportamentos escritores e quais gêneros serão priorizados em cada momento, oferecendo aos alunos oportunidades de experimentar a escrita em variadas situações comunicativas.
O critério de diversidade, no entanto, não deve ser confundido com a obrigatoriedade de trabalhar sempre com gêneros inéditos. Os especialistas Scheneuwly e Dolz, no livro Gêneros Orais e Escritos na Escola, propõem uma progressão "em espiral" por meio da qual, o aluno seja desafiado a produzir textos de um mesmo gênero, mas com maior complexidade ao longo dos anos de escolaridade.
Com as turmas de 1º e 2º anos, é imprescindível que você eleja os conteúdos que serão priorizados em cada situação didática, pois, para escritores iniciantes, a coordenação de todos os recursos utilizados pelos escritores experientes é uma tarefa extremamente complexa. Propostas do tipo texto livre" são pouco eficazes porque não delimitam as condições didáticas mínimas - o que escrever, com que propósito, para quais destinatários. Já em atividades de reescrita de histórias conhecidas, por exemplo, o aluno pode se concentrar na linguagem escrita que será empregada no texto, uma vez que não tem que se preocupar com a elaboração de um enredo.
Conheça e compare duas propostas curriculares, de uma instituição privada e de uma rede pública. A primeira é da Secretaria de Educação de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. A segunda é da Escola Projeto Vida, em São Paulo. Ambas cobrem do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e podem servir de exemplo para distribuir os conteúdos ao longo do ano letivo porque representam um passo além da chamada "normatização descritiva" (a tendência de explicar só as características de cada gênero).