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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A importância da leitura em sala de aula para a fluência leitora

By JARDINEIRO   Posted at  16:35   Textos No comments


5. Professores com um novo olhar sobre as atividades de leitura
Professores com um novo olhar sobre as atividades de leitura. Foto: Marina Piedade
A prática deve estar estar presente em toda a trajetória do estudante
As atividades de leitura para fluência não se relacionam a atividades em que os alunos precisam decorar textos. A leitura deve ser a atividade central da proposta. A preparação da leitura dramática não deve direcionar esforços para confecção de cenários ou figurinos, pois corre-se o risco de envolver outros aspectos que não estão relacionados à leitura fluente. O ensaio é que deve ocupar lugar de destaque nessa atividade, uma vez que é necessário ensaiar várias vezes para que a apresentação atinja seu propósito. A intenção é garantir fluidez na leitura e não avaliar a capacidade do aluno de decorar com facilidade.
Também não se trata de dramatizações tão frequentemente utilizadas na escola. Dramatizar um texto não requer muita preparação anterior, pode ser feita com base em qualquer gênero e contar com improvisos. Parece assemelhar-se à encenação, mas o texto serve apenas como referência e não é lido nem decorado.
O trabalho com fluência leitora na escola deve ganhar um novo olhar por parte dos professores, visando promover momentos e atividades variadas a depender da turma, da experiência leitora e da faixa etária dos alunos. É preciso contar com propósitos claros e objetivos definidos em variadas séries/anos.
De modo geral, as atividades de leitura devem estar presentes em toda a escolaridade, começando com as turmas menores, com leituras diárias e conversas sobre as leituras, em que os alunos possam socializar suas interpretações e estabelecer relações com outras leituras. Com os maiores, os projetos e sequências didáticas de leitura aparecem com mais frequência, além da permanência da leitura diária feita compartilhadamente ou pelo professor.
Trabalhar fluência leitora na escola é o desafio proposto para ampliar a experiência dos alunos com os textos e colaborar na compreensão do que se lê, ajudando-os a interpretar e a argumentar a favor de seu ponto de vista. Trabalhar a argumentação é outro ponto que precisa ser ampliado nas escolas, mas isso deve ser tema para outro artigo.
Quer saber mais?
BRÄKLING, Kátia Lomba. Sobre a leitura e a formação de leitores. São Paulo: SEE: Fundação Vanzolini, 2004.
BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Alfabetização, leitura e ensino de Português: desafios e perspectivas curriculares. Belo Horizonte: Anais do I Seminário Nacional Currículo em Movimento - Perspectivas Atuais, novembro de 2010.
GOODMAN. Lenguaje integral. Buenos Aires: Aique, 1986.
SCHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim (e colabor.). Gêneros orais e escritos na escola. São Paulo: Mercado das Letras, 2004.
GARZÓN, María C.; JIMENEZ, María E.; SEDA, Ileana. El teatro de lectores para mejorar la fluidez lectora em niños de segundo grado. Revista Lectura y Vida, Marzo 2008.
KUPERMAN, Cinthia. Enseñar lengua em la escuela primaria. Serie Respuestas, vários autores. Ed. Tinta Fresca
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A importância da leitura em sala de aula para a fluência leitora IV

By JARDINEIRO   Posted at  16:34   Textos No comments

2. O que significa fluência leitora?

O que significa fluência leitora?. Foto: Marina Piedade
Objetivo da leitura influencia a fluência e a própria compreensão do texto
A leitura feita pelo aluno talvez seja a modalidade que atualmente mais precisa de investimento na escola, no sentido tratado neste artigo. É comum ouvirmos dizer que o computador, a televisão e os jogos de vídeo game são os maiores concorrentes da leitura, e que estão ganhando a disputa. Há uma queixa recorrente dos professores de que os alunos leem pouco, não leem bem, não entendem o que leem, ou seja, não são leitores fluentes. Mas o que é ler bem? O que significa fluência leitora?
Ler fluentemente não significa compreender o que se lê, pois é possível ler rapidamente sem entender o assunto de que trata o texto. A leitura de um texto requer conhecimento de seu propósito por parte dos alunos, já que fluência também tem a ver com a intenção da leitura: para que ler, quais estratégias poderão ser utilizadas e o que se espera ao final. E é importante expor aos alunos esses propósitos em cada atividade. Costumamos "tomar" um texto sempre com uma intenção e esta não necessariamente está vinculada ao gênero. Dessa forma, nem sempre vou ler obras literárias apenas para apreciá-las. Também posso ler para fazer um estudo sobre a época em que se passa um romance, ou para analisar o estilo empregado pelo autor, ou ainda para traçar um perfil dos personagens. Lemos notícias com intuitos variados, além de nos informarmos. Podemos ler para conhecer mais sobre outro país, para ampliar nosso conhecimento sobre um assunto específico, para estudar para uma prova etc. Essa intenção irá determinar minha leitura e a compreensão que tenho do assunto abordado por aquele texto.
De acordo com Antônio Gomes Batista, em Alfabetização, leitura e ensino de Português: desafios e perspectivas curriculares, "para que o aluno leia com fluência é fundamental que: possua um amplo domínio das relações entre grafemas e fonemas na ortografia do Português; automatize o processo de identificação de palavras (...); seja capaz de realizar uma leitura expressiva, que envolve uma adequada atenção aos elementos prosódicos, como entonação, ênfase, ritmo, apreensão de unidades sintáticas".
Falamos, portanto, da fluência leitora para alunos que já conquistaram a base alfabética do sistema de escrita, aqueles que já dominam a escrita e estabelecem relações entre grafemas e fonemas.
O leitor que ainda está preso à decifração dificilmente consegue entender o que aborda o texto lido, pois não utiliza as estratégias mais adequadas para a compreensão. É necessário um trabalho que o ajude a ir além da leitura "palavra a palavra" ou "sílaba a sílaba" para buscar outros meios de identificação que permitam tornar a leitura mais fluente, utilizando paralelamente os processos de decifração e compreensão.

A importância da leitura em sala de aula para a fluência leitora

By JARDINEIRO   Posted at  16:31   Textos No comments

Ler por ler é atividade para se fazer na escola. Cada vez mais, professores têm valorizado as práticas de leitura em sala de aula. Atividades variadas favorecem a fluência leitora e a compreensão dos textos


1. Leitura conquista espaço para ser atividade central nas aulas
Leitura ganha espaço para ser atividade central nas aulas. Foto: Gabriela Portilho
Leitura compartilhada precisa ganhar espaço para promover o intercâmbio de ideias
A especialista em Língua Portuguesa, Valquiria Pereira. Foto: Gabriela Portilho
Valquiria Pereira, formadora de professores do Ensino Fundamental 1
O trabalho com leitura parece estar em um novo patamar nas escolas nos últimos anos. Os professores compreendem a função da leitura em suas diferentes modalidades: leitura pelo professor, leitura pelo aluno, leitura compartilhada, leitura para apresentar aos outros. Ler e apreciar um texto, atribuir sentido a ele, reler, comentar, comparar com outras leituras, ouvir o que dizem outras pessoas sobre o mesmo texto e ampliar seu olhar são ações que a escola pode desenvolver com os alunos em diferentes faixas etárias.
A leitura feita pelo professor alcançou o "horário nobre" em muitas salas de aula e hoje não é mais vista como uma atividade sem grande importância, que é realizada se sobrar um tempinho no final do dia, ou ainda para que seja feita outra atividade com base nela. A leitura está se tornando uma atividade central da aula, ocorre diariamente e, com isso, os professores têm mostrado aos alunos sua importância. As crianças podem conhecer diversos gêneros textuais, escritores e suas obras, valorizar diferentes estilos e apreciar textos de qualidade, previamente selecionados pelo professor, que compartilha com elas os critérios de sua escolha.
A leitura compartilhada ou colaborativa - aquela em que alunos e professor leem juntos um mesmo texto e apresentam suas ideias e impressões acerca do que foi lido - tem como finalidade, segundo Kátia Bräkling, em Sobre a leitura e a formação de leitores, "ensinar a ler, ou seja, criar condições para que as estratégias de atribuição de sentido (sejam relativas à mobilização de capacidades de leitura, ou utilização de determinados procedimentos e desenvolvimento de comportamentos leitores) sejam explicitadas pelos diferentes leitores, possibilitando, dessa forma, que uns se apropriem de estratégias utilizadas por outros, ampliando e aprofundando sua proficiência leitora pessoal". A leitura compartilhada precisa ganhar mais espaço na escola com o intuito de dar aos alunos um modelo de leitor (o professor) e promover o intercâmbio de ideias sobre o que foi lido.
Comentar sobre o que leu ou ouviu ajuda a atribuir sentido ao texto. Ao ouvir um conto, notícia ou lenda, o aluno o interpreta com base em seus conhecimentos de mundo e de outros textos, do que sabe e conhece do gênero ou do autor, do que antecipou durante a leitura. Quando ouve outras interpretações sobre o mesmo texto, ele passa a considerar diferentes pontos de vista e revê os seus, modificando-os, ampliando-os ou reforçando-os. Considerar o que um colega compreendeu, que caminho percorreu para chegar àquela conclusão e localizar qual parte da leitura possibilitou sua análise, ajuda-o a buscar sentido, a entender melhor o conteúdo e a ampliar sua própria interpretação sobre aquele texto e sobre outras leituras
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A importância da leitura em sala de aula para a fluência leitora II

By JARDINEIRO   Posted at  16:25   Textos No comments


Ler por ler é atividade para se fazer na escola. Cada vez mais, professores têm valorizado as práticas de leitura em sala de aula. Atividades variadas favorecem a fluência leitora e a compreensão dos textos


3. Ler e reler em voz alta ajudam a melhorar a compreensão do texto
Ler e reler em voz alta contribuem para melhorar a compreensão do texto. Foto: Kriz Knack
Atividade de leitura não deve ser usada somente para avaliação
Uma grande aliada do trabalho com fluência na escola é a leitura em voz alta, pois permite ao aluno preparar-se para ler, ensaiar, compreender para comunicar e expressar a outros um sentido. Ler para outras pessoas requer habilidade, concentração e expressividade, ou seja, envolve entonação, ritmo e ênfase. Para Goodman (1986), a leitura veloz está associada a uma alta compreensão.
Historicamente, a leitura em voz alta feita pelos alunos servia para a escola avaliar seu desempenho nessa atividade, atribuindo-lhes nota pela clareza e os erros cometidos - devia ser uma leitura rápida e eficaz, sem tropeços. Tomar leitura na escola era escolher o aluno "de surpresa", sem preparação prévia, muitas vezes sem ter lido o texto antes. De pé, o aluno lia para todos ouvirem. Os demais ficavam acompanhando para não perder o fio da leitura, com receio de serem os próximos a serem chamados e não saberem onde o colega havia parado. Se houvesse condições, os alunos decoravam o texto e apenas o reproduziam na hora da chamada, sem ler.
Ler em voz alta para outras pessoas ouvirem é um trabalho fundamental para desenvolver a fluência leitora e não para servir de avaliação. Definir a atividade, selecionar o que se lê, escolher a forma que será feita a leitura (em grupos, individualmente, divisão por personagens, por trechos etc.), ler e reler, ensaiar a apresentação, apresentar para um grupo menor (a própria classe) para ajustar alguns aspectos necessários e, por fim, apresentar a um público o que foi planejado.
Preparar a leitura envolve procedimentos específicos que devem ser socializados e explicitados. Ao definir o que cada um lerá na apresentação, os alunos podem grifar os trechos que serão lidos e destacar a última parte do colega para saber de onde partirá. Pode-se fazer um ensaio individual, outro ensaio coletivo, a apresentação para a turma e a retomada dos critérios necessários.
Ler e reler não significam de modo algum repetir várias vezes o que se leu sem ver sentido algum, apenas para tornar a leitura veloz e garantir fluência. O propósito dessa atividade é favorecer a compreensão de modo a dar mais ênfase a determinados trechos ou escolher o ritmo da narração
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A importância da leitura em sala de aula para a fluência leitora I

By JARDINEIRO   Posted at  16:23   Textos No comments


4. Sarau e leitura dramática são boas atividades para trabalhar a fluência
Sarau e leitura dramática são boas atividades para trabalhar a fluência. Foto: Alexandre Rezende
São raros os projetos didáticos em que a leitura é considerada produto final




















Ler por ler é atividade para se fazer na escola. Cada vez mais, professores têm valorizado as práticas de leitura em sala de aula. Atividades variadas favorecem a fluência leitora e a compreensão dos textos

Há atividades que propiciam a fluência leitora e que merecem espaço na escola: o sarau poético ou literário, o teatro lido ou a leitura dramática de textos e a leitura para gravação de CD. Estas atividades devem estar vinculadas a projetos ou sequências didáticas para seu desenvolvimento.
Ainda são raros os projetos didáticos cujo produto final seja somente uma atividade de leitura. É comum vermos projetos que envolvem leitura, mas o produto é sempre uma produção escrita. E esse é outro ponto importante a ser abordado: nem toda proposta de leitura precisa envolver uma proposta de escrita. Ler por ler é também atividade da escola e ler para apresentar a outras pessoas é um grande desafio.
Há práticas recorrentes de desenhos após a leitura - sejam de trechos que o aluno mais gostou, de personagens da história, de cenários ou do desfecho -, além de questões para serem respondidas a título de "interpretação do texto". As práticas de leitura se tornam chatas, sem sentido para os alunos, que preferem não ler por terem que cumprir uma tarefa posterior.
Dentre as atividades que favorecem o trabalho com fluência leitora, o sarau envolve a escolha dos textos e a preparação da apresentação, considerando um público externo. Pode contar com música de fundo, apresentações de vários grupos ou pessoas em horários alternados, e deve considerar um único gênero - por exemplo, sarau de poesias ou de contos.
A leitura dramática - também chamada de teatro lido - é a leitura em voz alta de uma obra teatral para o público e exige interpretação por meio de expressões faciais, gestos e entonação. A leitura dramática pode contar com uma direção (como em uma peça teatral), trilha sonora, figurino e até mesmo cenário ou alguns objetos de cena. Pode também ser uma leitura sem outros recursos além das falas dos personagens, marcadas por pessoas diferentes ou diferentes vozes. Os alunos podem estar sentados ou em pé, um ao lado do outro.
Outra proposta é a leitura de contos para a gravação de um CD a ser entregue para outra turma ou a uma instituição. Os alunos selecionam os textos de acordo com seus ouvintes, ensaiam a leitura e leem para a gravação, o que requer muitas idas e vindas. Gravam, ouvem, corrigem e gravam novamente, atentos ao tom de voz e às entonações dadas, podendo haver músicas de fundo ou sons de efeito
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O conceito de gênero textual e seu uso em aula II

By JARDINEIRO   Posted at  16:21   Textos No comments


Para trabalhar com gêneros nas aulas, deve-se ter atenção às razões de sua escolha, às características e às funções do tipo selecionado. Isso é essencial para elaborar bons planos de aula – e para que esses resultem em relatos de experiência excelentes


3. O que é um gênero textual

Do bilhete à poesia, a estabilidade de cada gênero se manifesta por suas características comuns. Crédito: Helder Tavares
Do bilhete à poesia, a estabilidade de cada gênero se manifesta por suas características comuns
Como nos ensina Bakhtin, gêneros textuais definem-se principalmente por sua função social. São textos que se realizam por uma (ou mais de uma) razão determinada em uma situação comunicativa (um contexto) para promover uma interação específica. Trata-se de unidades definidas por seus conteúdos, suas propriedades funcionais, estilo e composição organizados em razão do objetivo que cumprem na situação comunicativa.

Explicando melhor: isso significa que, a cada vez produzo um texto, seleciono um gênero...

... em função daquilo que desejo comunicar;

... em função do efeito que desejo produzir em meu interlocutor;

... em função da ação que desejo produzir no meio em que me inscrevo.

Isso vale das trocas mais prosaicas do cotidiano, nos bilhetes registrados em post-its colados nas geladeiras, passando pelas mensagens eletrônicas, entrevistas (orais e escritas), bulas de remédio, orações, cordéis, dissertações, romances, piadas etc. Uma das principais características dos gêneros é o fato de serem enunciados que apresentam relativa estabilidade. É esse aspecto que permite, justamente, com que sejam compreendidos.

Um exemplo extremo disso está no gênero "bula de remédio". Nos idos dos anos 1980, a linguista francesa Sophie Moirand mostrou como a estabilidade desse tipo de enunciado permitiria que qualquer falante do francês sem conhecimento nenhum de grego pudesse localizar informações (nome comercial, princípio ativo e posologia, por exemplo).

O conceito de gênero textual e seu uso em aula

By JARDINEIRO   Posted at  16:19   Textos No comments

Para trabalhar com gêneros nas aulas, deve-se ter atenção às razões de sua escolha, às características e às funções do tipo selecionado. Isso é essencial para elaborar bons planos de aula – e para que esses resultem em relatos de experiência excelentes


1. Fatores a considerar no trabalho em sala 

Saber selecionar o gênero a ser trabalhado é uma necessidade para o professor. Crédito Otávio Silveira
Saber selecionar o gênero a ser trabalhado é uma necessidade para o professor
A especialista em Língua Portuguesa, Rita Jover Faleiros. Foto: Gabriela Portilho
Rita Jover-Faleiros, selecionadora do Prêmio Victor Civita na área de Língua Portuguesa
Há cerca de dez anos, durante uma sessão de fechamento dos trabalhos do Congresso de Leitura (Cole), evento organizado a cada dois anos pela Associação de Leitura do Brasil na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), um eminente pesquisador da área dizia-se impressionado pelo modo como o conceito de gênero textual marcara presença entre os trabalhos apresentados naquele ano. Segundo o professor, a tendência era o conceito aparecer cada vez mais. Ele tinha mesmo razão. "Gênero" tornou-se uma referência comum em pesquisas, propostas curriculares e nas práticas de sala durante as aulas de Língua Portuguesa.

De fato, há grande consenso quanto ao interesse em se explorar a noção de gênero textual em contexto didático. Entretanto, para que essa atividade seja proveitosa, é necessário que o professor esteja bastante consciente de alguns fatores:

- Quais as razões para selecionar determinado gênero;

- Quais características o configuram;

- Quais as funções específicas do gênero selecionado;

- Quais objetivos de aprendizagem (específicos à área) o gênero selecionado propicia atingir junto a seu grupo de alunos;

- Que saberes prévios e estratégias de leitura ativa o gênero selecionado mobiliza.

A mim parece necessário que esses pontos estejam claros para os que se lançam à empreitada de desenvolver propostas de atividades com o uso do gênero. Nos capítulos deste artigo, proponho abordarei cada um desses aspectos, culminando com a ênfase em dois gêneros importantes para o professor: o plano de aula e o relato de experiências.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que é produção de texto?

By JARDINEIRO   Posted at  16:13   Textos No comments

Uma prática social de linguagem imprescindível para a participação no mundo da escrita


Você, professor, provavelmente já precisou produzir diferentes tipos de textos ao longo de sua trajetória profissional, como relatórios, planejamentos, monografias. Os advogados escrevem processos, petições, contratos. Os pesquisadores divulgam suas descobertas por meio de artigos científicos. Os cineastas produzem roteiros de filmes.
Essas são algumas situações profissionais em que é necessário produzir textos, mas elas não as únicas. Em atividades cotidianas, frequentemente, precisamos escrever recados, instruções, e-mails, comentários em redes sociais. A escrita também nos permite registrar nossas experiências em diários, compartilhá-las por meio de cartas e e-mails e ainda expressar nossa subjetividade em poesias, contos, crônicas.
A produção de textos é uma prática social de linguagem. Isso significa que, para participar ativamente da sociedade, como cidadãos da cultura escrita, precisamos ser capazes de escrever textos. Segundo a especialista em ensino da Língua Portuguesa, Kátia Lomba Bräkling, "em várias circunstâncias da vida escrevemos textos, para diferentes interlocutores [para quem?], com distintas finalidades [para quê?], organizados nos mais diversos gêneros [como se escreve], para circular em diferentes espaços sociais [coloquiais, formais etc.]".
Um pouco de teoria
Para dar conta de ajudar seus alunos a escrever com autonomia, é preciso, primeiramente, assumir uma concepção de linguagemclara. Diferentes correntes teóricas definem o que é a linguagem e você precisa ter consciência da concepção que embasa sua prática em sala.
As três concepções de linguagem mais comuns que já nortearam (e, em algumas instituições, ainda norteiam) as práticas de ensino são:
- a linguagem como expressão do pensamento;
- a linguagem como instrumento de comunicação;
- a linguagem como forma de interação.
Cada concepção implica uma prática pedagógica específica e, consequentemente, uma maneira distinta do estudante se relacionar com a língua.
A linguagem como expressão do pensamento Essa concepção tem origem na tradição gramatical grega, vigorou durante toda a Idade Média e só foi superada no início do século 20. Segundo Alba Maria Perfeito, especialista em linguística e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), essa corrente assume a língua como uma atividade mental. Regido por normas que definem o certo e o errado, o uso da língua é visto como uma consequência de pensá-la corretamente. Desse modo, fala e escreve bem o indivíduo que pensa bem. A heterogeneidade linguística e as variações determinadas pelas diferentes situações de uso são completamente desconsideradas nessa concepção.
Sob essa ótica, o ensino da língua se resume ao ensino das normas gramaticais. Acreditava-se que, para produzir bons textos, bastava ao aluno dominar tais regras. "Essa visão de linguagem permeou o ensino de língua materna no Brasil e foi mantida, praticamente sem grandes mudanças até o final da década de 1960. Segue tendo repercussões atualmente", afirma Alba no artigo Concepções de Linguagem e Análise Linguística: Diagnóstico para Propostas de Intervenção.

A linguagem como instrumento de comunicaçãoA ruptura com a corrente anterior se deu com as pesquisas do linguista e filósofo suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913). No início do século 20, ele focou a organização interna da língua, sua estrutura. A linguagem deixou de ser entendida como expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de comunicação. Nesse modelo, a língua passou a ser considerada um código por meio do qual um emissor transmite uma mensagem a um receptor, independentemente das condições históricas e sociais em que ambos se encontram.
O ensino pautado por essa concepção foca prioritariamente as estruturas - os substantivos, os verbos, os pronomes, etc. - que compõem a língua e seu emprego correto em frases. Predominam os exercícios estruturais mecânicos de seguir modelos, de múltipla escolha e de completar lacunas.

A linguagem como forma de interaçãoCom base nas pesquisas desenvolvidas pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) - e pelo grupo de intelectuais de formação variada que ficou conhecido como Círculo de Bakhtin -, a linguagem passa ser concebida como um constante processo de interação, mediado pelo diálogo. Segundo essa concepção, a língua só existe em função do uso que locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem lê ou escuta) fazem dela em situações (prosaicas ou formais) de comunicação.
Ao conceber a linguagem como forma de interação, o ensino da língua materna passa a ser o ensino das práticas de linguagem, isto é, dos diferentes usos que se faz da língua em diferentes contextos.
É nessa concepção de linguagem como forma de interação que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para Língua Portuguesa no Ensino Fundamental 1 estão fundamentados:

"O estabelecimento de eixos organizadores dos conteúdos de Língua Portuguesa no ensino fundamental parte do pressuposto que a língua se realiza no uso, nas práticas sociais; que os indivíduos se apropriam dos conteúdos, transformando-os em conhecimento próprio, por meio da ação sobre eles; que é importante que o indivíduo possa expandir sua capacidade de uso da língua e adquirir outras que não possui em situações linguisticamente significativas, situações de uso de fato."

A especificidade do trabalho nas séries iniciais 
No 1º e 2º anos, todos devem produzir textos, inclusive os pequenos que não estiverem alfabetizados. Por meio do ditado, seja para os colegas ou para o professor, esses alunos vão se apropriando, ao mesmo tempo, da linguagem escrita e do sistema alfabético. Aqueles que já estiverem alfabetizados precisam ser desafiados a conquistar cada vez mais autonomia, planejando, escrevendo e revisando seus textos de acordo com os propósitos, o gênero e seus potenciais leitores.


Por que ensinar produção de texto?

Dominar a produção de texto de diferentes gêneros possibilita a participação cidadã em esferas formais e informais

Por que ensinar os alunos a produzirem textos? Porque um dos objetivos da escola é formar cidadãos capazes de utilizar a escrita com eficácia e que tenham condições de assumir a palavra, inclusive por escrito, para participar ativamente das diferentes esferas de comunicação existentes na sociedade.
Um pouco de teoria
Conforme justifica a especialista argentina Delia Lerner, o ensino das práticas de linguagem - entre elas a produção de texto - é imprescindível, pois:
"Tradicionalmente, o que se concebe como objeto de ensino é a língua, em particular seus aspectos descritivos e normativos. As práticas de leitura e escrita como tais estiveram praticamente ausentes dos currículos, e os efeitos dessa ausência são evidentes: a reprodução das desigualdades sociais relacionadas com o domínio da leitura e da escrita. Estas continuarão sendo patrimônio exclusivo daqueles que nascem e crescem em meios letrados, até que o sistema educacional tome a decisão de constituir essas práticas sociais em objeto de ensino e de enraizá-las na realidade cotidiana da sala de aula, até que a instituição escolar possa concretizar a responsabilidade de gerar em seu seio, as condições para que todos os alunos se apropriem dessas práticas." (Ler e Escrever na Escola - O Real, o Possível e o Necessário, p. 58)
O especialista José Luiz Fiorin explica que "os seres humanos agem em determinadas esferas de atividades, as da escola, as da igreja, as da política, as das relações de amizade e assim por diante. Essas esferas de atividades implicam a utilização da linguagem na forma de enunciados". Seus alunos precisam, portanto, aprender a produzir textos que circulem nas mais variadas esferas de atividade, que aglutinam gêneros específicos. Na esfera da publicidade, por exemplo, circulam anúncios e slogans. Na esfera acadêmica, temos os artigos científicos, relatórios, teses, dissertações etc.
Ao longo de toda a vida escolar, os alunos vão ter de escrever textos que fazem parte da ação de estudar: resumos, anotações de aula, roteiros de seminário, registros de experimentos científicos etc. Mas, para que se tornem sujeitos ativos na cultura letrada e exerçam plenamente sua cidadania, também será necessário que eles aprendam a escrever textos de outras esferas, desde a cotidiana, da qual fazem parte os bilhetes, as receitas e as listas, passando pela jornalística - composta por notícias, artigos de opinião, entrevistas -, até a literária com poesias, contos, crônicas. E tudo isso só vai acontecer se você ensiná-los a escrever tais textos.
A especificidade do trabalho no 1º e 2º anos
O trabalho de formação de escritores competentes não é simples e deve começar já nos anos iniciais da escolarização. Para isso, é necessário primeiramente avaliar os conhecimentos que os alunos já possuem para, em seguida, planejar situações reais em que a língua escrita seja colocada em prática e faça sentido para os alunos com idade entre 6 e 7 anos.

O que ensinar na produção de texto?

É fundamental mostrar aos alunos o que fazem leitores e escritores competentes


Para ensinar a produzir bons textos, você precisa ensinar aos alunos o que fazem os escritores competentes. É necessário, portanto, ensinar-lhes os comportamentos escritores e leitores.
São comportamentos escritores básicos as ações de:
Planejar o que se pretende escrever;
Textualizar, isto é, escrever o texto propriamente dito;
Revisar o texto escrito.

Todas essas ações só são possíveis quando se tem clareza da função comunicativa do texto que está sendo produzido. Ou seja, para se produzir um bom texto é necessário considerar o gênero textual, os potenciais leitores, os objetivos que se pretende com aquele material escrito (informar, divertir, encantar, etc.). Esses elementos são imprescindíveis para que o aluno consiga planejar, textualizar e revisar o próprio texto.
Ao escrever, os alunos também colocam em práticacomportamentos leitores, como:
Antecipar a informação que segue no texto;
Verificar se o que foi antecipado se confirma ou não;
Reler para compreender melhor;
Saltar trechos incompreensíveis, pouco interessantes ou que já foram lidos.

Esses dois conjuntos contêm os comportamentos mais importantes que escritores e leitores mobilizam individualmente quando lêem ou escrevem. Além dessas ações, é necessário ensinar aos alunos os comportamentos leitores e escritores que são mais sociais, como:
- Submeter uma versão (parcial ou completa) do texto à leitura preliminar de alguns leitores para saber se objetivos definidos no planejamento estão sendo atingidos;
- Comentar ou compartilhar as impressões da leitura de um texto com outras pessoas;
- Recomendar leituras;
- Pedir recomendações de leitura.

As boas propostas de ensino de produção de texto trabalham simultaneamente vários desses comportamentos, priorizando determinados aspectos em momentos específicos. Como afirma Delia Lerner em seu livro Ler e Escrever na Escola - O Real, o Possível e o Necessário, "os comportamentos do leitor e do escritor são conteúdos - e não tarefas, como se poderia acreditar - porque são aspectos do que se espera que os alunos aprendam, porque se fazem presentes na sala de aula precisamente para que os alunos se apropriem deles e possam pô-los em ação no futuro, como praticantes da leitura e da escrita."

Expectativas de aprendizagem
A seguir, apresentamos dois referenciais para que você balize o que sua turma deve saber em relação à produção escrita ao final das séries iniciais do Ensino Fundamental 1. As obras dialogam entre si, trazendo expectativas semelhantes e/ou complementares.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa estabelecem como objetivos para a produção escrita ao final da 2ª série (atual 3º ano) que os estudantes sejam capazes de:
- Produzir textos escritos coesos e coerentes, considerando o leitor e o objeto da mensagem, começando a identificar o gênero e o suporte que melhor atendem à intenção comunicativa;
- Considerar a necessidade das várias versões que a produção do texto escrito requer, empenhando-se em produzi-las com ajuda do professor;
- Escrever textos dos gêneros previstos para o ciclo, utilizando a escrita alfabética e preocupando-se com a forma ortográfica. Os gêneros sugeridos para o trabalho com a linguagem escrita são: receitas, instruções de uso, listas; textos impressos em embalagens, rótulos, calendários; cartas, bilhetes, postais, cartões, convites, diários; quadrinhos, textos de jornais, revistas, e suplementos infantis; anúncios, slogans, cartazes e folhetos; parlendas, canções, poemas, quadrinhas, adivinhas, trava-línguas, piadas; contos (de fadas, de assombração etc.), mitos e lendas populares, folhetos de cordel, fábulas; textos teatrais; relatos históricos, textos de enciclopédia, verbetes de dicionário e textos expositivos de diferentes fontes.

Por sua vez, a proposta curricular da Província de Buenos Aires, na Argentina, estabelece que, ao final do 2º ano, os alunos das séries iniciais sejam progressivamente capazes de:

- Tomar decisões sobre o gênero, o registro, o suporte, a informação que ser incluída e a que será omitida, a ordem de apresentação das informações, etc., de acordo com os propósitos e os destinatários do texto;
- Planejar o texto antes e enquanto está escrevendo;
- Consultar outros materiais de leitura que colaborem para a elaboração do texto;
- Revisar a própria produção enquanto escreve, refazendo diversas versões para elaborar um texto bem escrito e tomando decisões sobre a apresentação final dele.
- Colaborar com a revisão dos textos dos colegas, mostrando diferentes pontos de vista sobre distintos aspectos do tema.
- Receber criticamente as sugestões dos colegas e decidir sobre a incorporação ou não na versão final do próprio texto.


Desde as séries iniciais, o trabalho de produção de texto precisa fazer parte da rotina 


Articuladas com os momentos que priorizam o ensino da leitura, as situações didáticas de produção de texto devem fazer parte da rotina escolar desde as séries iniciais, mesmo que os alunos ainda não escrevam convencionalmente. O domínio do sistema alfabético não é pré-requisito para o trabalho com a linguagem escrita.
No planejamento, além de partir das dificuldades e dos conhecimentos explicitados pelos alunos no diagnóstico inicial, é preciso eleger quais comportamentos escritores e quais gêneros serão priorizados em cada momento, oferecendo aos alunos oportunidades de experimentar a escrita em variadas situações comunicativas.
O critério de diversidade, no entanto, não deve ser confundido com a obrigatoriedade de trabalhar sempre com gêneros inéditos. Os especialistas Scheneuwly e Dolz, no livro Gêneros Orais e Escritos na Escola, propõem uma progressão "em espiral" por meio da qual, o aluno seja desafiado a produzir textos de um mesmo gênero, mas com maior complexidade ao longo dos anos de escolaridade.
Com as turmas de 1º e 2º anos, é imprescindível que você eleja os conteúdos que serão priorizados em cada situação didática, pois, para escritores iniciantes, a coordenação de todos os recursos utilizados pelos escritores experientes é uma tarefa extremamente complexa. Propostas do tipo texto livre" são pouco eficazes porque não delimitam as condições didáticas mínimas - o que escrever, com que propósito, para quais destinatários. Já em atividades de reescrita de histórias conhecidas, por exemplo, o aluno pode se concentrar na linguagem escrita que será empregada no texto, uma vez que não tem que se preocupar com a elaboração de um enredo.
Conheça e compare duas propostas curriculares, de uma instituição privada e de uma rede pública. A primeira é da Secretaria de Educação de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. A segunda é da Escola Projeto Vida, em São Paulo. Ambas cobrem do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e podem servir de exemplo para distribuir os conteúdos ao longo do ano letivo porque representam um passo além da chamada "normatização descritiva" (a tendência de explicar só as características de cada gênero).

Viva a Paz!

By JARDINEIRO   Posted at  16:07   Textos No comments

Viva a paz! Ilustração: Rogério Fernandes
Dois gatinhos assanhados
se atracaram, enfezados.
A dona se irritou
e a vassoura agarrou!

E apesar do frio, na hora,
os varreu porta afora,
bem no meio do inverno,
com um frio "do inferno"!

Os gatinhos, assustados,
se encolheram, já gelados,
junto à porta, no jardim,
aguardando o triste fim!

De terror acovardados,
os dois gatinhos, coitados,
não puderam nem miar,
lamentando tanto azar!

Sem ouvir nenhum miado,
a dona, por seu lado,
dos gatinhos teve dó,
e a porta abriu de uma vez só!

Mesmo estando tão gelados,
os dois gatinhos arrepiados
Zás! Bem junto do fogão
surgem, sem reclamação!

E a dona comentou:
tanto faz quem começou!
Uma encrenca boba assim
bom é que tenha logo um fim!

E ela acrescentou, então,
não querem brigar mais, não?
E os gatinhos, enroscados,
esqueceram da briga, aliviados.

Confortados, no quentinho,
com sossego e com carinho,
dormem bem, bichos queridos,
já da briga esquecidos.
Tatiana Belinky, adaptadora desta cancão popular inglesa, é escritora e tradutora. Tem mais de 100 livros publicados. Em 1989, ganhou o Prêmio Jabuti por sua trajetória literária.

Caixinha Mágica

By JARDINEIRO   Posted at  16:06   Textos No comments

Caixinha mágica. Ilustração: Ricardo Girotto
Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não
cabe em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra
do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.

Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio
e, para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.

O que é que você quer
esconder na minha caixa?
Roseana Murray, autora deste poema, já escreveu mais de 40 livros, entre elesReceitas de Olhar (Ed. FTD) e Kira (Ed. Abacatte).
 

Dona Cotinha, Tom e Gato Joca

By JARDINEIRO   Posted at  16:05   Textos No comments


Dona Cotinha, Tom e gato Joca. Ilustração: Ionit Zilberman
Em frente à minha casa tem outra casa, pequena, de madeira, azul com janelas brancas. Está no fim de um terreno enorme com muitas árvores. Para mim aquilo é o que chamam de floresta. Tom diz que é um quintal. Ali mora dona Cotinha, uma velhinha que tem cabelos lilás e dirige um Fusquinha vermelho. Esse passou a ser meu esconderijo. Dona Cotinha sempre aparece com um prato de comida. Diz:

- Vem, gatinho. Olha só o que eu trouxe para você.

Sou premiado com sardinha fresca, atum, macarrão. Tenho engordado além da conta. Dia desses estava tomando sol e ouvi o Tom me chamar. O danado sentiu meu cheiro e descobriu meu segredo. Ele estava no portão quando chegou dona Cotinha, no seu Fusquinha.

- Bom dia, menino - disse ela. Já que está em frente à minha casa, faça uma gentileza e abra o portão.

Tom obedeceu. Dona Cotinha afagou minha cabeça e perguntou:

- Este gatinho é seu?

- Sim, senhora.

- Ele é muito educado.

- Obrigado - disse eu, na minha voz de gato.

- No primeiro dia que o vi por aqui, ele entrou na casa e cheirou tudo. Agora, sempre deixo uma comidinha para ele!

- Ah! Mas o Joca não come comida de gente, não, senhora. Só come ração - disse o Tom.

- Come, sim, meu filho. E come de tudo.

Dona Cotinha acabava de denunciar minha gula e o aumento de peso. Continuou:

- Passe aqui no fim da tarde. Faço um bolo de fubá com cobertura de chocolate que é de dar água na boca.

Com água na boca fiquei eu. Naquela tarde voltamos à casa de dona Cotinha. Ela foi logo mostrando pro Tom uma coleção de carrinhos antigos. Era do filho dela, que morreu bem pequeno. Depois nos levou para uma sala repleta de livros. Tom ficou de boca aberta e perguntou:

- A senhora já leu todos esses livros?

- Praticamente todos. Ler foi minha diversão, meu bom vício. Infelizmente meus olhos não ajudam mais. Essa pilha que você está vendo aqui ainda nem foi tocada.

Tom começou a ler em voz alta, e sua voz encheu a sala de seres fantásticos. O tempo parou.

Desse dia em diante, à tardinha, eu e Tom tínhamos uma missão. Abrir os livros de dona Cotinha e deixar os personagens passearem pela casa mágica, no meio da floresta da cidade de pedra.
Cléo Busatto, autora deste conto, é escritora e contadora de histórias
.

Se Eu Fosse Esqueleto

By JARDINEIRO   Posted at  16:04   Textos No comments


Se eu fosse esqueleto. Ilustração: Eduardo Recife
Se eu fosse esqueleto não ia poder tomar água nem suco porque ia vazar tudo e molhar a casa inteira.

Tirando isso, ia acordar e pular da cama feliz como um passarinho.

É que ser uma caveira de verdade deve ser muito divertido.

Por exemplo. Faz de conta que um banco está sendo assaltado. Aqueles bandidões nojentões, mauzões, armados até os dentões, berrando:

- Na moral! Cadê a grana?

Se eu fosse esqueleto, entrava no banco e gritava: bu!

Bastaria um simples bu e aquela bandidagem ia cair dura no chão, com as calças molhadas de úmido pavor.

O gerente e os clientes do banco iam agradecer e até me abraçar, só um pouco, mas tenho certeza de que iam.

Se eu fosse caveira, de repente vai ver que eu ia ser considerado um grande herói.

Fora isso, um esqueleto perambulando na rua em plena luz do dia causaria uma baita confusão. O povo correndo sem saber para onde, sirenes gemendo, gente que nunca rezou rezando, o Exército batendo em retirada, aquele mundaréu desesperado e eu lá, todo contente, assobiando na calçada.

Um repórter de TV, segurando o microfone, até podia chegar para me entrevistar:

- Quem é você?

E eu:

- Sou um esqueleto.

E o repórter:

- O senhor fugiu do cemitério?

Aí eu fingia que era surdo:

- Ser mistério?

E o repórter, de novo, mais alto:

- O senhor fugiu do cemitério?

- Assumiu no magistério?

- Cemitério!

- Fala sério? Quem?

Aí o repórter perdia a paciência:

- O senhor é surdo?

E eu:

- Claro que sou! Não está vendo que não tenho nem orelha?

Se eu fosse esqueleto talvez me levassem para a aula de Biologia de alguma escola. Já imagino eu lá parado e o professor tentando me explicar osso por osso, dente por dente, dizendo que os esqueletos são uma espécie de estrutura que segura nossas carnes, órgãos, nervos e músculos.

Fico pensando nas perguntas e nos comentários dos alunos:

- Como ele se chamava?

- É macho ou fêmea?

- Quantos anos ele tem?

- Tem ou tinha?

- Magrinho, não?

- O cara sabia ler ou era analfabeto?

- E a família dele?

- Era rico ou pobre?

- O coitado está rindo de quê?

E ainda:

- Professor, ele era careca?

Enquanto isso, eu lá, no meio da aula, com aquela cara de caveira, sem falar nada para não assustar os alunos e matar o professor do coração.

Uma coisa é certa. Deve ser muito bom ser esqueleto quando chega o Carnaval. Aí a gente nem precisa se fantasiar. Pode sair de casa numa boa, cair no samba, virar folião e seguir pela rua dançando, brincando e sacudindo os ossos. Parece mentira, mas, no Carnaval, porque é tudo brincadeira, a gente sempre acaba sendo do jeito que a gente é de verdade.

Se eu fosse esqueleto, quando chegasse o Carnaval, ia sair cantando:

Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela


Todo mundo sabe que o maior amigo do homem é o cachorro.

O que a maioria infelizmente desconhece e a ciência moderna esqueceu de pesquisar é que o pior inimigo do esqueleto late, morde, abana o rabo, carrega pulgas e aprecia fazer xixi no poste.

E se eu fosse esqueleto e por acaso um vira-lata me visse na rua, corresse atrás de mim e fugisse com algum osso dos meus?
Ricardo Azevedo, autor deste conto, é escritor e ilustrador. Já escreveu mais de 100 livros para crianças e jovens, entre eles Trezentos Parafusos a Menos (Ed. Companhia das Letrinhas) e Contos de Espanto e Alumbramento (Ed. Scipione). É ganhador de vários prêmios, entre eles o Jabuti, que venceu cinco vezes
.

Vampi & O Presente Mágico

By JARDINEIRO   Posted at  16:03   Textos No comments


Vampi e o presente mágico. Ilustração: Fábio Lucca
Vampi, a vampira chique e cheia de imaginação, morava numa casinha em cima de uma árvore. Um dia, ela ganhou de presente um carro conversível rosa-choque.

Vampi montou, acelerou com força e buzinou forte - Fon-fon!

O carro furou o ar e sumiu pelo mundo afora.

Vampi viu um trem grande e comprido, viu ônibus pequenos e curtos.

Viu prédios cinzentos, viu casas coloridas.

Viu ruas com gente apressada e becos onde só tinha fantasma, uh...

Viu gente, bicho, planta.

Redondo, quadrado, oval e retangular.

Viu o céu, viu o mar, viu a montanha.

Azul e violeta, laranja e vermelho, verde em mil tons.

Viu nuvens brancas, apertou um botão e voou.

Os pássaros passavam pertinho e tudo era pequenininho, lá embaixo...

Vampi só ria, fazendo bi-bi, fon-fon e pedalando, pedindo passagem para as estrelas, que eram maiores do que ela, vejam só!

De olho na volta, procurou um lugar para aterrissar, mas, ao ajeitar o cabelo, errou o alvo e caiu no mar.

Opa! Apertou outro botão, o carrinhoavião virou navio, flutuou, começou a afundar e já era um submarino, quase um peixe, nadando no meio das algas e dos corais...

Um peixe olhou para ela, dois peixes, três, quatro, cinco, mil, um cardume inteiro, quantos peixes são?

Nem deu tempo de contar. Devagarinho, o submarino subiu, virou navio, flutuou, virou avião, pousou e virou carrinho outra vez, parando ao pé da sua árvore. Na mesma hora, nasceram seis patas no lugar das rodas, e ele virou uma aranha, que subiu pelo tronco até alcançar os altos galhos cheios de folhas... Atravessando-os como se fosse um fantasma, levou Vampi de volta para casa.

"Puxa, meu carro é mágico!" - disse ela, encantada, saindo por cima, sem abrir a porta. Mas logo mudou de ideia: sentando-se outra vez no seu carrinho rosa-choque, Vampi riu, sonhando com a próxima aventura.
Regina Drummond, autora deste conto, é escritora de livros infanto-juvenis, tradutora e contadora de histórias. Escreveu Sete Histórias do Mundo Mágico (Ed. Devir), Eu, Bruxa (Ed. Saraiva) e Andersen e Suas Estórias (Ed. Ave Maria), entre outras obras.
 

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